Estudar Russo – Aventuras e desventuras

Quando comecei a estudar russo eu não sabia nada mesmo, nem um привечки (oizinho) saía, tudo para mim era novo: a gramática, o léxico, os sons, os sentidos, os verbos e suas nuances, os casos, o alfabeto, enfim, um mapa gigante de uma terra desconhecida.

Então comecei essa jornada e, até hoje, confesso, me surpreendo com a riqueza da língua e os contorcionismos mentais que precisamos fazer para entende-la.

Às vezes esse entendimento passa pela simples aceitação: o russo não tem artigo e pronto, os casos estão aí e as palavras ganham terminações inúmeras que precisarão ser decoradas, o verbo ser/estar existe, mas não conjuga no presente, aceitemos que dói menos.

Porém é preciso dizer que há muitas aventuras por essas desventuras: por ser uma língua tão distante da nossa, ficar traduzindo o tempo todo é uma péssima ideia, pois faltam correspondentes semânticos que satisfaçam o desejo de mediar o outro idioma com o nosso.

O russo acaba sendo entendido pelo russo mesmo, pois, em geral, não dá para tentar adivinhar o significado das palavras e fazer associações com a nossa língua mais atrapalha do que ajuda, porque nem sempre o objeto direto cá é o acusativo lá e por aí vai.

Lembro-me de uma vez estar lendo um dos muitos capítulos de O Capital de Marx e me deparar com uma analogia interessante: dizia o teórico que não se pode analisar e compreender os fatos materiais históricos fora da História, assim como não se pode estudar uma língua fazendo associações com elementos fora dela.

Logo, não se pode analisar e propor mudanças a sociedade sem tomar como ponto de partida a realidade material: não podemos analisar o mundo a partir de suposições (“imagine se não houvesse classes sociais...”) Se fizermos isso, cairemos numa balela, em hipóteses muito bacaninhas, mas nada aplicáveis.

A exploração existe, a estratificação em classes também, o que faremos com esses fatos materiais, como apreendê-los e como provocar mudanças? Aí está: A análise parte da realidade material e não de suposições e ideias que não dão conta da realidade.

O mesmo se aplica ao estudo de qualquer idioma: não dá para estuda-lo traduzindo o tempo todo, criando conexões com elementos fora da língua-alvo, elas são insuficientes e não dão conta de explica-la, fazer isso deixará a língua sempre manca, artificial.

E então me vi diante da boa e velha realidade material: A língua russa está aí, o que eu faço com ela? Foi isso que pensei logo no início dos meus estudos e, criando conexões do russo com o russo, eu não só aprendi, eu me apaixonei pelo idioma que hoje leciono.

Na História podemos associar um momento político concreto com outro (também concreto) para poder entendê-los melhor, na língua podemos associar uma palavra com seus sinônimos e antônimos, construir frases e aplica-las em situações diferentes para decorá-las e, de fato, apreender seus sentidos.

O idioma russo está aí, com seus desafios, delícias e desventuras para os falantes de línguas latinas, vale a pena submergir nesse universo linguístico e descobrir na prática que se os signos são tão arbitrários como a vida, também são eles que a significam e representam em todas as suas nuances.


Diana Soares - Professora de Russo




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